No Pico das Nuvens, o vento raramente fala por inteiro. Ele repete sílabas antigas, restos de mapa, nomes de clãs desaparecidos e sons de caravanas que não caminham mais. Os cartógrafos de Aetheria chamaram isso de instabilidade acústica. O xamã dos ventos chamou de luto.
O primeiro fragmento reconhecível surgiu durante uma calmaria impossível. Uma pena permaneceu suspensa no ar, apontando para uma corrente invisível, e o vento repetiu um verso incompleto: se a seiva guarda, que o céu não fuja. Ninguém ali conhecia o verso, mas um pedaço de folha trazido de Eldor respondeu com luz fraca.
Esse foi o primeiro sinal de que o Pico não precisava ser curado como uma ferida comum. O lugar precisava ser estabilizado para que suas vozes deixassem de competir. Selar todas as correntes teria produzido paz falsa. Libertar todas teria espalhado a Ruptura pelas planícies. O trabalho exigia leitura, não conquista.
Os nômades sobreviventes afirmam que os Cantos do Vento nunca foram mapas no sentido comum. Eram compromissos ritmados: quando partir, quando esperar, quando avisar outro povo antes que a própria rota estivesse segura. Perder os cantos foi perder uma forma de responsabilidade.
Aetheria guarda este livro ao lado dos mapas incompletos do Pico. Ele lembra aos estudiosos que uma rota quebrada ainda pode orientar, desde que ninguém confunda fragmento com verdade inteira.