Biblioteca de Aetheria · Contos de Mythral

O Dia em que Aetheria Ficou em Silêncio

Mesmo texto canônico usado no acervo da biblioteca do bot.

Arte da Biblioteca de Aetheria para o livro O Dia em que Aetheria Ficou em Silêncio

No primeiro Dia da Reconstrução depois da queda, ninguém sabia se era permitido cantar.

As ruas estavam limpas demais. As bandeiras, novas demais. As muralhas ainda cheiravam a argamassa fresca, e muitas casas tinham mais nomes lembrados do que cadeiras à mesa. Mesmo assim, o conselho decretou celebração. A cidade precisava provar que continuava viva.

Ao meio-dia, músicos subiram ao palco central. O maestro ergueu a mão, mas nenhuma nota saiu. Não por falha. Por medo. Todos conheciam alguém que não voltara. Todos sabiam que uma música alegre demais pareceria insulto, e uma música triste demais pareceria derrota.

Foi uma criança quem quebrou o impasse. Ela começou a bater duas pedras pequenas, uma contra a outra, sem ritmo certo. Um pedreiro acompanhou com o martelo no cabo da ferramenta. Depois veio uma cozinheira com uma concha, um guarda com a ponta da lança no chão, uma velha com palmas secas.

O som cresceu sem melodia, mas com pulso. Não era canção de vitória. Era barulho de gente trabalhando.

Desde então, em alguns bairros de Aetheria, o Dia da Reconstrução começa com um minuto de silêncio e termina com ferramentas batendo em pedra, madeira e ferro. A cidade lembra que esperança não precisa soar bonita. Precisa continuar.