No primeiro Dia da Reconstrução depois da queda, ninguém sabia se era permitido cantar.
As ruas estavam limpas demais. As bandeiras, novas demais. As muralhas ainda cheiravam a argamassa fresca, e muitas casas tinham mais nomes lembrados do que cadeiras à mesa. Mesmo assim, o conselho decretou celebração. A cidade precisava provar que continuava viva.
Ao meio-dia, músicos subiram ao palco central. O maestro ergueu a mão, mas nenhuma nota saiu. Não por falha. Por medo. Todos conheciam alguém que não voltara. Todos sabiam que uma música alegre demais pareceria insulto, e uma música triste demais pareceria derrota.
Foi uma criança quem quebrou o impasse. Ela começou a bater duas pedras pequenas, uma contra a outra, sem ritmo certo. Um pedreiro acompanhou com o martelo no cabo da ferramenta. Depois veio uma cozinheira com uma concha, um guarda com a ponta da lança no chão, uma velha com palmas secas.
O som cresceu sem melodia, mas com pulso. Não era canção de vitória. Era barulho de gente trabalhando.
Desde então, em alguns bairros de Aetheria, o Dia da Reconstrução começa com um minuto de silêncio e termina com ferramentas batendo em pedra, madeira e ferro. A cidade lembra que esperança não precisa soar bonita. Precisa continuar.