Nara era pequena demais para conduzir uma caravana e orgulhosa demais para admitir que estava perdida.
A chuva havia apagado as marcas da estrada, os cavalos se recusavam a seguir e os adultos discutiam se a Planície dos Ventos ficava à esquerda ou atrás deles. Nara subiu no teto de uma carroça, lambeu a água dos bigodes e anunciou que sabia o caminho.
Ninguém acreditou.
Então ela fez algo que nenhuma criança deveria fazer sozinha: desceu pela lateral da carroça, correu até o limite da luz das lanternas e desapareceu na chuva.
Encontrou a estrada por acidente. Não por coragem, nem por talento. Tropeçou em uma pedra de marco, caiu na lama e bateu o nariz no símbolo antigo de uma rota comercial. Quando voltou, coberta de barro, todos queriam celebrar sua grande percepção.
Nara recusou.
"Eu não encontrei a estrada", disse. "Eu caí nela."
Essa honestidade salvou a caravana na manhã seguinte. Em vez de seguir a primeira marca com confiança cega, os adultos procuraram outras confirmações: vento, inclinação, cheiro de rio, musgo nas pedras. A rota verdadeira apareceu aos poucos.
Anos depois, Nara se tornou uma das guias mais respeitadas do Povo Gato. Sua primeira lição continuou a mesma: sorte ajuda, mas só a humildade impede que a sorte vire mentira.